Crítica: ‘J. Edgar’ – Quando Um Homem Ama Outro Homem
   

Em ‘J.Edgar’ Clint Eastwood remonta a vida de uma das figuras mais controversas do cenário de segurança e política norte-americano. Por quase cinquenta anos como diretor do FBI John Edgar Hoover, foi alvo homem de muitas façanhas e críticas. Serviu a oito presidentes, grampeou milhares de telefones e chutou outras tantas pessoas para fora da América dos sonhos, com a fixa ideia sobre comunismo, pessoas comunistas e qualquer tipo de ato considerado por ele subversivo. Trabalhou ainda jovem na Biblioteca do Senado, logo depois no Departamento de Justiça como assistente do procurador geral Palmer. Foi ele quem implementou o sistema de impressões digitais para identificar criminosos e organizou dezenas de agentes, sem noção de pericia no começo da aplicação da chamada ciência forense, para a analise de cenas criminais. Mas isso fica em segundo plano, nesse longa capitaneado por Leonardo DiCaprio como Hoover, a vida pessoal do diretor do FBI é a principal abordagem.

O filme poderia de modo sucinto contar a história do homem com tendências megalomaníacas, famoso por escutar enterrado em seu gabinete as conversas que gravava financiadas pelo governo através dos grampos em linhas telefônicas de celebridades, políticos e figuras públicas, mas acaba ganhando tintas emotivas pelas mãos de Eastwood e do roteirista Dustin Lance Black, tendo como foco a vida afetiva e seu relacionamento com o segundo homem em comando do FBI Clyde Tolson (Armie Hammer). O que se vê durante todo do processo é um homem que para vias de fato passava a imagem de metódico, incansável e por vezes inescrupuloso enquanto a cumprir seus objetos, sufocado por uma mãe Anna Marie Hoover (Judi Dench) controladora e preconceituosa, preso em uma aparência que a todo custo ele próprio criou. Com a ajuda da secretaria Helen Gandy (Naomi Watts) com quem a principio ensaia um breve romance, Hoover passa os anos comando a departamento de investigações com mão de ferro e mentiras.

Na tentativa de humanizar e mostrar um lado até então pouco explorado do homem, Clint Eastwood faz um ensaio cativante da relação entre Edgar e Clyde, ambos são casados com a carreira e seguem como ‘amantes’ em suas vidas privadas por várias décadas. Usando metafóricas para refeições juntos, o diretor apresenta e deixa claro uma rotina dos dois juntos. Muito embora, o próprio Eastwood negue esse fato em algumas entrevistas, não é isso o que se vê em cena. Parte do encanto do filme deve-se ao trabalho que DiCaprio consegue apresentar. Sua interpretação esnobada pela academia vai à altura do personagem que ele defende, principalmente na fase mais velho de Hoover, quando sua decadência tanto física quanto profissional começa a abalar sua vida pessoal. Assim como Hammer faz Clyde sensível e contrastante com a personalidade seca do parceiro.

É uma pena que o único enfoque do filme seja o lado afetivo do personagem. Ligado a tramoias, golpes e muitos escândalos investigativos John Edgar Hoover e seus ‘hoover boys’ do FBI mereciam um tratamento mais real e menos ficcional de sua vida. Válido por retratar a intimidade, mas deixa muito a desejar no que diz respeito à realidade em si, o filme peca pelo excesso de romance direto ou indiretamente e pela falta de exploração no cenário que envolvia o personagem em sua época. Quem sabe em um próximo trabalho alguém não resolva desconstruir um J. Edgar assim como por anos tentaram descobrir sobre seus arquivos secretos.

Trailer [legendado]:

 
 

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